Gente a gosto, sal a gosto, dias a gosto e agosto chega sem parar.
Eu espero o ano inteiro por um dia só que acontece e acaba sem que eu perceba. Talvez o inicio seja mais presente, eu já acordo com um sopro no peito e um brilho no olho. O fim eu já não sei, me perco no meio do caminho antes dos créditos subirem na tela.
Eu fervo a água pro meu chá, coloco minhas pantufas felpudas no pé e me cubro com o ropão cor-de-rosa que eu herdei da minha mãe. É esse o meu ideal de manhã, um calor subindo dos pés a cabeça. Nunca leio o jornal, apesar de receber todos os dias, acho que assim pareço um pouco mais inteligente e bem-informada do que realmente sou. Não que eu me importe, os vizinhos que pensem o que quiserem. Uso os assassinatos, roubos e tráficos pra limpar o xixi do meu cachorro e guardo a programação do cinema no meu bolso.
O chá é sempre o mesmo, caixinha azul com flores mil desenhadas por todos os cantos. Aprendi a tomar com a minha mãe, herança. Ao lado das flores tem escrito ‘açúcar a gosto’. Eu rio e coloco duas colheres. Apesar de saber que deveria colocar só uma, colesterol e essas coisas mais que assombram todo mundo.
Eu mexo meu chá muitas vezes, nunca conto, ainda bem. Me perco com todos os números que passam pelos meus olhos. Eu checo o pedacinho de jornal que guardei e ouço o vizinho arrastar a cadeira no andar de cima. Me irrito um pouco com o fato de que o filme que eu quero ver ainda não lançou. Não vai lançar nunca, é? Não tem nada de interessante no cinema ainda. Semana que vem, quem sabe?
Não acontece nada nesse dia de agosto. Nada que pareça melhor que nenhum dos outros dia.
Eu decidi que nesse dia de agosto eu comemoro.
Como e moro a gosto a vida.
Não saio de casa, não saio de mim. Deito e rolo nos meus lençóis e embrulho meus sonhos em caldas brancas. Me gasto, me tenho sem me conter.
Tomo um jarro de chá doce e como uma barra de chocolate amargo. Faço pra me lembrar de que amargo e doce são a melhor combinação, tanto entre meus dentes, quanto no meio do meu caminho.
Eu ligo para o trabalho dizendo que meu gato morreu, alegando que é melhor ficar em casa e cuidar do meu luto. Ninguém sabe que eu não tenho gato, nunca tive, detesto felinos. Só a moça, minha amiga que trabalha do meu lado e sabe de coisas sobre mim que nem eu mesma sei.
Eu corro na direção contrária do vento na minha varanda e sorrio quando escorrego no tapete da sala. Escrevo versinhos sobre minha infância e sobre o amor. Me vejo copiando palavras de outros e desisto.
Hoje eu decidi que quero que todos os meus dias sejam assim. Que o gosto todo se misture debaixo da minha língua e que meu cuspe saia da boca e deixe um rastro por todo canto.
Decidi que mesmo que eu tenha que me assentar na cadeira de rodinhas e fazer compras no supermercado da esquina, que eu vou comer e morar a gosto a minha vida.
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