domingo, 28 de agosto de 2011

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Aqui em casa não tem aquecedor. Na minha casa só tem um forno de tamanho normal, um microondas e uma torradeira.
Não precisa.
Tem os cobertores e os casacos pesados, com cheiro de guardado, da casa da avó.
Isso também.
Não.
Isso também não tem não.
Aqui só tem isso.
Isso que eu tenho.
Eu só tenho isso.

Eu só tenho isso.

Não tem nem também?
Então o que é isso?
“SÓ” isso?
Que a gente tem?
Eu tenho só isso. Eu não tenho nada pra te oferecer, querida. Não tenho pão com manteiga nem um chuveiro de água quente.
Eu tenho só isso aqui.
Tenho três pastilhas verdes pra dor de garganta, tenho um litro de leite estragado e um garfo de plástico quebrado ao meio.
Eu não tenho nada disso.
Aqui em casa não tem aquecedor. Se nevar no telhado a gente morre de frio.
Aqui em casa não tem telhado.
Se nevar lá fora neva na sua cabeça.
Se nevar lá fora a gente morre de frio.
Não tem nada. Não tem nem também. Tenho só isso.
Eu não pertenço a coisa nenhuma e coisa nenhuma me pertence.
Hipertenso.
E pertenço.
Pertenço a tudo.

Swing

Tem música vindo lá da parede! Tem música vindo de dentro dos tijolos da minha casa. Tem música entrando no meu espaço, invadindo a minha alma. Tem música comemorando a glória de existir, cantando sobre o amor, descrevendo sua cor. Tem música vindo lá do canto do fim do mundo, pra todo mundo ouvir.
Tem samba, salsa temperando o teto, jogando açúcar no meu chão. Tem bossa derretendo todas as minhas coisas. Tem notas borbulhando pra fora da minha chaleira, tem rés e dós adocicando o meu café, tem cantigas de criança forçando um sorriso na minha cara, tem palavras e melodias enlouquecendo os meus braços e pernas. Tem penas coloridas voando pra todo lado. Tem gente que eu nunca vi, nomes que não conheço, entrando no swing comigo.
Minha casa virou um carnaval e eu nem percebi. Minha alma virou um carnaval e eu nem notei.

Esconderijo


Eu te liguei ontem á noite. Te liguei para contar sobre a minha tentativa de sair daqui. Eu tenho uma dificuldade de sair daqui.

O que é aí, querido?

Aqui, onde eu estou. Esse lugar cheio de mim por todo canto. Esse canto de uma sala redonda. Esse lugar aqui, que eu estou. Eu te falei, te contei, mil vezes. Não lembra?

Não, não me lembro de nada disso. Não me lembro nada do que me acontece, do que me aconteceu. Por opção. Prefiro não lembrar. Prefiro não lembrar.

Esquecer?

Não, prefiro não me lembrar de nada. Eu estou presa!
Estou presa e tenho pressa.

Onde você está?

Estou presa dentro de mim mesma. Amarrei quinhentas cordas em todas as extremidades do meu corpo e prendi minha alma à ele.
Tirei uma foto do meu interior e pintei minha pele dessa mesma cor.
Me prendi de fora pra dentro e não sei mais o que é mais importante.

O que?

Se o que me importa é o que ta fora ou se quero mesmo é me parecer comigo mesma por dentro. Eu tenho um carrossel girando no meu estomago, não sabe?
Tenho mil folinhas de outono carregando vitaminas para todos os meus pedaços mais obscuros.
Eu estou sempre nesse corpo aqui. Não saio nem pra comprar pão. Não saio de dentro de mim, fora de mim, de dentro pra fora e vice-versa.
Tenho calor nas minhas veias correndo pra fora, entrando no meu prato de comida e sendo ingerido de novo.

E onde eu te acho?

Você pode vir até aqui. Se eu te der um endereço você vem, querido? Se eu te falar onde eu escondo as minhas entranhas você vem colocar elas pra dentro comigo? Você me empresta seu calor xadrez de flanela quente e me afaga pelo inverno a fora?

Vou. Eu vou sim!

Então venha já. Saia desse lugar que você está. Onde é que você se esconde, hein?

Em você. Eu me escondo em você.

O que?

Eu sou você, não sabe? Não se olha no espelho há quanto tempo? Se olha no vidro, vai. Olha seu reflexo na água do chuveiro. Faz uma poça nas panelas empilhadas na pia e olha pra sua cara. Eu me escondo em você, no fundo dos seus olhos. No final da rua.
Eu me escondo em você, querida.

Documento sem título

Eu escalei uma montanha gigantesca hoje e meus braços parecem estar desmontados de mim.
Eu escalei uma montanha gigantesca hoje e seus braços parecem estar montados em mim.
Eu detesto essa história de plano. Eu detesto ter que achar um sentido pra tudo, porque não tem sentido.
Essa historia de sentido da vida não existe, sabe?
Essa historia de sentido da vida não existe, sabe?
Essa historia de sentido da vida, da vida, essa vida, da vida, essa historia de vida, de sentido, de sete, sentidos, de sentido, da vida, vida, sentido de vida, ela não existe.
Eu vejo todos os dias as mesmas coisas. Eu acordo de manha e vejo se tem alguma carta pra mim no correio.
Se tem, eu torço, torço pra não ser nenhuma conta pra eu pagar, pra não ser uma intimação pra comparecer a lugar nenhum, pra que não seja uma propaganda qualquer de uma coisa qualquer.
Se tem, eu torço pra não me chamarem pra guerra. Porque se me chamarem eu tenho que ir.
E lá não tem historia nenhuma, não tem coisa nenhuma.
Eu tenho que ir, servir uma coisa maior que não se importa com nada do que eu me importo.
Lá não tem essa coisa de sentido da vida.
Não tem não, sabe?
Lá não tem essa historia não.
´
Se você está numa guerra, não há poesia que caiba em uma bala, não existe palavra nenhuma pra encher um canhão. Se você ta numa guerra, você não precisa saber o porque das coisas, o motivo que elas acontecem, sabe?
Não tem dessa.

Eu acordei hoje muito tarde. Era tarde mesmo, todo mundo já tinha acordado, menos eu.
Hoje eu acordei tão tarde. Meu dia começou 5 horas mais tarde que o de todo mundo. Eu fui a ultima a acordar no mundo.
Eu não perdi tempo nenhum.
Eu achei que eu tinha perdido minha vida inteira hoje.
Eu não perdi tempo nenhum.
Eu prometo que eu vou pagar 5 horas de sono hoje. Vou lá, ver um filme, ler um livro, descobrir o sentido da vida.
Vou lá fazer nada, exemplificar minha vida para os outros verem.
Eu não quero que ninguém veja o que eu faço nesse tempo.
Eu quero só pagar as horas a mais que eu gastei hoje dormindo.

Uma música feia cantada por uma voz bonita é sempre uma música bonita.
Uma mulher feia falando uma palavra de amor é sempre uma mulher bonita.
Uma pessoa bonita chamando você de meu amor é sempre uma pessoa bonita.
Eu posso ver através do vidro da minha janela e vejo um milhão de casinhas cheias de gente.
Eu vejo pela minha TV um milhão de casinhas de gente que eu não conheço.
Eu tenho uma facilidade pra chorar.
Eu tenho uma facilidade pra ter dó de tudo, de querer acolher com minhas próprias mãos todos que estão ao meu redor.

Cansei disso aqui.
Não posso começar todas as minhas frases com EU.
Se você usa um decote muito grande não é porque você é uma puta.
Se você é um homem você pode ser uma puta, se você quiser.
Tem gosto pra tudo, sabe?
Sabe?
Você viu?
Ouviu?
Descobriu?
Foda-se.

Mil palavras juntas não fazem um livro.
Você precisa de cimento.
Ci
Men
Tô.
Tô sim, to aqui.
Ci
Me
Pedirem
Eu
To
.
Vou, vou sim. Me liga que eu to lá.
Eu vou.
Vou, vou sim.
Não gosto de falar coisas engraçadas.
Eu gosto é de falar.
Mas tem hora que eu não quero falar nada.
Tem hora que eu não penso em nada.
Não penso em nada mesmo, quase medito.
Tem uma montanha coberta por luzinhas na frente da minha casa.
Quando você consegue ficar sem falar nada e não achar que deve alguma coisa pro mundo, quer dizer que você chegou num nível bom.
Eu acho.
Eu não preciso falar nada pra você, as vezes.
Eu sinto um quente nas minhas bochechas e uma força nos meus braços.
Eu odeio jogos de guerra.
Dá vontade de chorar.
Eu fico pensando se o mar é feio de lágrimas.
Tipo uma cidade, coberta de areia.
Uma cidade, coberta de lágrimas.
Eu sempre choro.
De tristeza.
Porque todo mundo é triste.
O ser humano é triste por natureza.
A felicidade é só um estado.
É só um estado.
Você não consegue ser feliz o tempo todo.
Você não consegue comer um peixe cru, sabe?
Você precisa de alho.

Eu gosto tanto de você que me dói a mão.
Eu queria achar um jeito de te falar isso, mas me encurralo num buraco.
Tem uma parede cinza bloqueando meus olhos.
Eu quase consigo ver os meus sonhos passando na minha frente.
Mas não consigo ver nada.
Eu vejo você se escondendo na minha voz.

Empurra esse criado mudo pro lado e coloca uma cadeira no lugar dele.
Empurra ele pro lado e coloca uma poltrona confortável aí pra eu me sentar toda hora.
Pra eu me sentar e te olhar dormir, você faz isso por mim?
Você vai até a esquina e compra uma coisa pra mim?
Sem eu te pedir por favor. Você faz isso por mim?
Você ouve o que eu não tenho pra dizer?
E se eu não quiser, eu posso te falar?
Posso te contar as coisas que eu penso, promete que não acha tudo uma bobagem?
Le as coisas que eu escrevo, se acha nelas. Você ta lá, já li tanta coisa que você escreveu que agora eu sinto que você está em todas as minhas palavras.
Eu gosto de desenhar, mas acho tudo o que eu faço idiota.
Eu me acho uma idiota.
Eu sei que eu não sou, não precisa me falar.
Eu não preciso responder tudo o que as pessoas me perguntam. Eu não quero ser cientista, se eu quisesse eu fazia vestibular pra biologia, química.
Eu odeio química.
Eu não sei gastar dinheiro na medida certa.

Ontem eu dormi na frente da TV.
E fui andando pro meu quarto, dormi sem escovar os dentes.
Eu sei que você não se importa.

Tem uma coisa estranha engolindo meu sangue.
Ele sai do meu coração e vai direto pra lá.
Cada célula do meu corpo volta pra mim em formato de flor.
Eu troquei meu cérebro por um rádio. Toca música na minha cabeça o dia inteiro.
Porque que você faz isso com as pessoas?
Você pediu permissão?
Não pediu não.
Mas eu te dou toda a permissão do mundo, eu gosto de ouvir o que você tem pra me dizer.
Você tem um jeito estranho de ver as coisas. E eu? Eu tenho é um medo de falar coisa errada e você me achar idiota. Eu tenho medo de falar uma coisa que te faça me olhar esquisito.
E se você acordar um dia e de repente descobrir que não quer nada disso pra você?

Eu confio na minha vida, confio na minha forma.
Eu acho que você não vai acordar dia nenhum achando que você não quer mais nada disso pra você.
Eu acho que as pessoas tem que aprender com o que elas mesmas falam.
Eu aprendi já.
Prometo.
Eu tenho uma felicidade que mora aqui, nas minhas mãos.

Sério

Eu vi mil lâmpadas saindo da boca da menina hoje. Isso na rua, no meio da rua.
Bom, talvez não no meio, certo, certinho da rua, mas era mais ou menos no meio da rua. Era num lugar bem centralizado. Enfim, eu vi uma menina cuspindo luzinhas hoje.
Mil luzinhas, parecendo natal.
A menina teve um revertério sério do estomago e começou a cuspir luz;

Parto

Acho que o parto dói mais na alma do que na palma da mão.
Acho que o parto é mais doído porque aquela é sem dúvida a última vez em que o filho tem proteção completa da mãe. E que ela pode dizer que ele é parte de si.
Porque depois que o mundo entra na pessoa...ou, que a pessoa entra no mundo, ninguém mais é de ninguém.

divido a minha dívida
duvidosa
com você, minha dádiva
divido a minha dádiva
dividosa
com você, minha dúvida
divido, de vidro, minha dúvida